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Os Cocos de Búzios

Búzios

Nas Férias de Dezembro de 2008 fui para a famosa cidade de Búzios. Esta cidade se tornou famosa depois que, em 1964 uma renomada atriz francesa, Brigitte Bardot,  fez dela  sua cidade favorita para passar suas férias. É conhecida por ser uma cidade frequentada  pela classe média alta e alta do Brasil além de receber centenas de turistas estrangeiros, devido a isto Búzios é uma cidade cara, o que, em geral, afugenta as pessoas de classe social mais baixa.

Chegando lá fui logo para a praia de Geribá, uma das mais badaladas de Búzios. Manhã cedinho, fui de calção novo, especialmente comprado para aquela cidade, afinal de contas a alta sociedade estaria lá. Passando pelo portal de acesso à areia me deparei com um visual lindo, com a maré ainda baixa, o mar ainda muito calmo. A esquerda da praia vi inúmeras gaivotas pousadas na água a beira da areia aguardando as sobras de peixes jogadas por pescadores que tinham acabado de aportar  trazendo peixes frescos para serem comercializados. A praia naquele momento estava limpa e ainda se podia ver um trator repleto de lixo e vários garis deixando o local. Passei um dia maravilhoso, um céu azul contrastado por um sol amarelo brilhante. O calor era forte minimizado pela temperatura baixa da água e pelo vento que soprava ininterruptamente. Tomei lugar numa mesa com guarda-sol, entre as centenas que povoavam a areia da praia e que eram fornecidas pelos restaurantes do local. Ao longo do dia foi só isto, sol, mar, água de coco, cerveja, e outros petiscos e circundado por pessoas utilizando relógios e óculos importados e alguns portando cordões de ouro de algumas centenas de dólares. Senti-me um pouco constrangido por não possuir símbolos que me colocassem ao mesmo nível social daqueles.

Lá pelas tantas, resolvi ir para casa almoçar, pedi a conta ao rapaz do restaurante, e no caminho levei todo o lixo gerado por mim e joguei numa caçamba da prefeitura que estava posicionada no alto da praia. No final da tarde resolvi voltar na praia para curtir o final do dia e ver como seria o por do sol em Búzios. Quando passei pelo portal tive um choque, centenas de cocos, copos descartáveis e guardanapos estavam espalhados pela areia nos  locais antes ocupados pelas mesas e seus frequentadores, só escaparam as latinhas, pois são recolhidas pelos catadores de latas. O visual era completamente diferente daquele visto pela manhã, lembrava bastante um aterro sanitário com cachorros correndo e brincando por entre os cocos em busca de algum resto alimentar.

Isto me fez refletir sobre a sociedade brasileira. Como pessoas da alta sociedade, tão educadas, viajadas e frequentadoras daquela praia podiam largar o lixo gerado por eles no chão, como os donos dos restaurantes, que também são pessoas do mais alto nível, não se preocuparam em recolher todo aquele lixo, pois, afinal de contas foram eles que o produziram, é mais ou menos pensar em ir a um restaurante e chegando lá no final do dia encontrar todos os pratos copos e talheres sujos jogados pelo chão. Também não entendo como o prefeito da cidade não institui uma norma de utilização da areia pelos restaurantes onde cada um teria que recolher o lixo gerado por eles com pena de receber multas pesadas ou até perder a licença, ao invés disto este prefere gastar mais dinheiro contratando vários garis para fazer a limpeza da praia pela manhã, quando ele poderia apenas recolher as caçambas de lixo, o que seria mais rápido e demandaria menos tempo e pessoal.

Cheguei à conclusão que a consciência coletiva em tratar o bem público tem muito pouco a ver com a condição social das pessoas. Tenho fé que um dia, nós brasileiros, teremos esta consciência e chegará o dia em que nossos rios, praias e lagoas estarão despoluídos, nossas ruas limpas e que cada um cuidará do bem público como sendo seu, pois na verdade ele é  nosso, só não conseguimos ainda perceber esta realidade no mundinho  em  que  vivemos.

Edvaldo de Castro

Janeiro 2009
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Os cocos de Búzios by Edvaldo de Castro is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.

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  1. Rodrigo Fernandes
    February 2nd, 2009 at 16:23 | #1

    Realmente é de se lamentar a mentalidade do nosso povo, semanas atrás conversando com um amigo tocávamos neste assunto, o descaso do povo com o seu bem estar e a diferença que esta muito próximo de nós que a cidade de curitiba, uma cidade altamente educada e diga-se de passagem muito limpa, quem ja passou por la pode afirmar.
    No meio do bate papo chegamos no meu ponto de vista uma coisa muito importante, que é a chamada ” malandragem” do povo carioca, o mito de ser “otario”, por fazer o que a maioria não faz, chegamos a conclusão que essa mentalidade de ser o povo mais ” foda” (desculpe o termo),atrapalha demais o desenvolvimento urbano e social de nossa cidade. Em relação aos turistas, aposto que a maioria deles não gostariam que outros como eles fossem fazer sujeira em suas cidades. Fica um ponto de reflexão para cada um de nós e que entre na cabeça de todos que um desenvolvimento social parte da população somente dela.

  2. February 2nd, 2009 at 18:13 | #2

    Vendo por um lado, bem que o povo brasileiro merece conviver com o lixo nas ruas pelas razões que todos nós conhecemos e sabemos muito bem o porque, mas como esse não é o caso…
    O mal do povo daqui é que não levam a sério o famoso caso do “se cada um fizer sua parte” as coisas vão mudar, não dá pra entender esse tipo de coisa…

  3. February 9th, 2009 at 14:01 | #3

    Você foi muito feliz em sua análise. E é assim mesmo. Infelizmente para a maioria dos brasileiros o que é público é automaticamente confundido com algo “sem dono”. Quando na realidade é responsabilidade de todos.

    Responsabilidade, civilidade e compreensão não se compram em lojas de grife e nem em camelôs.

    Um abraço.

  1. January 18th, 2010 at 02:13 | #1