Para estreiar o blog…
A formiguinha que queria voar
Um dia, Marronzinho perguntou à sua mãe:
-Mãe, eu gostaria de começar a buscar folhas, ja estou cansado de fazer a mesma coisa.
Sua Mãe respondeu:
- Não Marronzinho, sua função aqui e só alimentar as larvas e assim será para o resto de sua vida. Isto é o certo.
Marronzinho abaixou as anteninhas e voltou à função que lhe fora atribuída.
Por vezes, Marronzinho sentia algo estranho em seu coração, ficava triste, mas logo depois lembrava que o certo era fazer aquilo e voltava ao seu trabalho. Porém, com o passar dos anos, Marronzinho começou a se tornar uma formiga sem alegria e mal humorada. Ninguém surportava Marronzinho,- Este cara é esquisito- diziam as outras formigas. Brigava com todos, nada estava bem, só via coisas negativas na vida. Até que um dia ele resolveu acabar com tudo. Decidira dar um fim á sua existência. Afinal de contas, se viver era ficar alimentando larvas todos os dias, então seria melhor acabar com tudo. Marronzinho foi até a beira do precipício, olhou para o formigueiro que fora seu lar e se despediu da vida se jogando lá de cima.
Entretanto, o vento que soprava encosta acima , fez com que Marronzinho subisse ao invés de cair, alcançando uma boa altura antes de ser deixado carinhosamente pelo vento próximo ao formigueiro.
- Nossa ! como é bonito ver as coisas lá de cima – Disse Marronzinho.
- Gostaria de poder voar, mas como conseguir, eu não tenho asas!
Imediatamente, Marronzinho começou a vagar pela floresta procurando uma maneira de voar. Por dias ele fez isto. Já havia até esquecido que queria morrer, tamanha fora a excitação que sentira por ter visto, mesmo que por alguns instantes, a floresta lá de cima.
Algumas formigas de outros formigueiros que o encontravam pela floresta diziam:
-Marronzinho, volta para o seu formigueiro, você morrerá sozinho na floresta.Você está louco?- O que ele fizera havia se espalhado por toda a floresta. Todos sabiam que havia tentado o suicídio e abandonado o formigueiro. Mas Marronzinho não ligava, afinal havia descoberto algo que o fizera ter vontade de viver novamente.
Um dia Marronzinho encontrou um tigre:
- Oi seu tigre! Como está o senhor?
- Eu estou bem.Vocês estão sempre em bando, onde estão os outros?
- Eu estou sozinho. Mas e o senhor, cadê os outros?
- Que outros, o certo e viver sozinho.
- Ham? Sozinho? Mas minha mãe me disse que o certo e viver com os outros
- Não, o certo e viver sozinho. E olha, vai embora daqui que eu não gosto muito de fazer amigos.
Marronzinho acelerou o passo e desapareceu dos olhos do tigre. Mas algo ficou em sua mente:
- Qual é o certo então, viver sozinho ou com os outros?
Marronzinho estava confuso com o que o tigre havia lhe dito.
Continuando sua caminhada pela floresta, se deparou com um bicho esquisito. Ele tinha uma tromba enorme em forma de funil e não tinha boca- Era o tamanduá. Assim que este viu Marronzinho, esticou a tromba até ele e começou a sugar. O vento provocado, arrastava tudo em volta , folhas e pedras . Marronzinho se viu dragado até a tromba do tamanduá.
- Moço, porque está fazendo isto – gritava Marronzinho, colocando suas patinhas na entrada da tromba, impedindo assim de ser sugado para o estômago daquele bicho estranho.
- Me solta, seu aspirador gigante! Continuava a gritar.
Até que o tamanduá necessitando de mais ar para uma segunda aspirada, deixou Marronzinho cair . Este correu o mais que pode , mas infelizmente o tamanduá já estava atrás dele e aspirando novamente . Se agarrava a tudo que podia para não ser devorado. Marronzinho já não enxergava direito devido a poeira que se acumulava em seus olhos e continuava a correr desesperadamente sem que conseguissse se desvencilhar do tamanduá. Mais a frente, ele viu uma árvore e sem pensar duas vezes subiu até alcançar um galho, se livrando enfim daquele bicho horrendo.
A respiração de Marronzinho era tão alta e ofegante que acabou chamando a atenção de um outro bicho, o camaleão
- Comida fácil- disse o camaleão, que já apontava sua lingua pegajosa em direção àquela formiguinha.
Marronzinho, olhando pelo canto dos olhos e ainda com a respiração ofegante, percebeu aquela enorme lingua gosmenta sendo lançada em sua direção
- Ai! Vai começar de novo. Disse apavorado.
A língua o pegou e Marronzinho estava sendo levado diretamente para a boca daquele camaleão.Iria virar um belo aperitivo cansado, mas Marronzinho estava com sorte. Como estava cheio de poeira da fuga do tamanduá, acabou escorregando da língua e caiu no chão da floresta.
Desta vez porém, não teve tanta sorte. Havia quebrado uma das patinhas dianteiras.
- Isso Dóiiii! Resmungou .
Estava exausto de tanto tentar fugir e lutar pela sua vida, mas parecia que por aquele momento não havia mais nenhum perigo imediato, o que o levou a entrar debaixo de um galho de árvore e dormir um pouco.
No outro dia, Marronzinho começou novamente sua busca por um meio de voar. Agora mancando, encontrou então uma lagarta que se arrastava pelo chão da floresta. A primeira reação foi de se esconder, mas depois pensou:
- Ela não tem nariz grande e nem aquela língua gosmenta. Vou falar com ela.
-Oi dona lagarta!
- Oi . Você é Marronzinho, aquela formiga que abandonou o formigueiro e tentou se suicidar?
- È! Sou sim
- Ham, sei!
- Dona lagarta eu já estou a vários dias tentando encontrar uma maneira de voar e não consigo, a floresta é muito perigosa e não sei se conseguirei sobreviver mais um dia aqui. A senhora sabe quem pode me ensinar a voar?
- Olha Marronzinho, se tiver um pouco de paciência eu poderei te falar sobre isto, mas vai ter que esperar uns dias.
- Tá bom dona lagarta eu espero. O que a senhora vai fazer agora?
- Apenas olhe e tenha paciência.
Ali ficou Marronzinho, vendo aquela lagarta se pendurar em um galho de árvore, tecer uma rede em volta de si mesma e aparentemente morrer. Dias se passaram e Marronzinho já estava impaciente, mas algo dentro dele dizia: Tenha paciência
- Dona lagarta! A senhora está me escutando? Dona lagarta! Dona lagaaarta!
A lagarta não respondia.
- Será que ela morreu? Se perguntava Marronzinho impaciente.
Então algo começou a se mexer dentro do casulo. Isto chamou a atenção de Marronzinho que não desgrudava os olhos da árvore.
Uma borboleta havia nascido.
Marronzinho pensou:
- Ué! Cadê a dona lagarta!. Dona borboleta cadê a dona lagarta que estava aí dentro?
- Oi Marronzinho, ainda sou eu, apenas me transformei em uma borboleta.
Marronzinho maravilhado com aquela descoberta, subiu, ainda que mancando, até àquele galho de árvore e se pendurou de cabeça para baixo.
- Marronzinho, saia daí o que você está fazendo!
- Ué! Vou me transformar em uma borboleta também.
- Não dá Marronzinho, você é uma formiga
- Se você conseguiu eu também consigo
E continuou pendurado de cabeça para baixo, na esperança de poder tecer uma rede.
- Desça daí Marronzinho vamos conversar. Vem aqui vem!
- Tá bom dona lagarta.
- Não sou mais uma lagarta, agora sou uma borboleta. Olha Marronzinho, você nunca poderá ser uma borboleta, mas isto não te impedirá de voar. Vamos fazer o seguinte…
- O que dona lagar.. borboleta.
- Sobe nas minhas costas.
Assim foi, Marronzinho subiu nas costas da borboleta e começaram um vôo.
Os olhos de Marronzinho brilhavam, as anteninhas esticadas para cima cortavam o vento. Ele estava finalmente voando. Tudo era lindo lá de cima, o vale, as montanhas os rios. Marronzinho mal podia falar, chorava e ria ao mesmo tempo. Finalmente ele havia conseguido o que tanto desejava: Voar. Agora tudo fazia sentido, um peso enorme havia sido retirado de suas costas. Tudo pelo que passou de ruim em sua busca já não tinha a menor importância, o importante é que agora ele estava voando e estava feliz. A borboleta o havia levado pelos quatro cantos do mundo. Agora Marronzinho conhecia tudo, aquela tristeza desaparecera. O seu coração estava alimentado de vida.
Voltaram depois de muitos anos para a floresta e Marronzinho, como sempre curioso, começou a questionar sobre algumas coisas que o deixara confuso quando conversou com o tigre.
- Azulzinha- era como ele chamava a borboleta- um dia eu encontrei o tigre que me disse que o certo era viver sozinho, mas minha mãe sempre me disse que o certo era viver com os outros. Afinal o que é certo?
- Nada é certo e tudo é certo Marronzinho.
- Shiii.. pirou- Pensou Marronzinho ao mesmo tempo que coçava a cabeça com as antenas.
-Depende para quem você vai perguntar. Os indivíduos quando se reúnem criam regras para que as coisas fiquem mais previsíveis. Então o que é certo em um grupo de indivíduos e errado para outros. Não existe o certo absoluto somente o certo relativo. Para o tamanduá era certo te comer , para o tigre viver sozinho, para sua mãe viver com os outros.
- Tá bom, já entendi. Azulzinha eu quero ver minha mãe e meus irmãos no formigueiro,
vem comigo!
- Tá bom Marronzinho eu vou.
Chegando no formigueiro, Marronzinho encontrou sua mãe e seus irmãos que o receberam com alegria e toques de antenas. Marronzinho apresentou sua amiga Azulzinha e contou tudo que fez pelo mundo. Sua mãe disse:
-Você realmente enlouqueceu Marronzinho.
Então, pediu a sua mãe para voltar á trabalhar alimentando as larvas.
Agora Marronzinho não tinha mais áquela sensação de tristeza, sua alma estava livre e ele podia voltar a voar e passear pela floresta sempre que quizesse, aliás o formigueiro nunca o havia impedido disto. Era apenas a crença do certo e errado que o havia mantido em cativeiro por tanto tempo. Não era a prisão física que o estava matando , mas sim a do coração. E a chave estava dentro dele mesmo.
Créditos a Edvaldo de Castro

A Formiguinha Que Queria Voar by Edvaldo de Castro is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.


