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Para estreiar o blog…

January 11th, 2009 Leonardo Monteiro No comments

A formiguinha que queria voar


No alto de um precipício ,numa floresta tropical, havia um formigueiro de formigas saúvas.Neste formigueiro nasceu uma formiguinha chamada Marronzinho. Como cada formiga em um formigueiro tem uma função, a do Marronzinho  era alimentar as larvas.Durante anos está foi sua vida, apenas alimentar as larvas, sem sequer sair de dentro do formigueiro.

Um dia, Marronzinho perguntou à sua mãe:

-Mãe, eu gostaria de começar a buscar folhas, ja estou cansado de fazer a mesma coisa.

Sua Mãe respondeu:

- Não Marronzinho, sua função aqui e só alimentar as larvas e assim será para o resto de sua vida. Isto é o certo.

Marronzinho abaixou as anteninhas e voltou à função que lhe fora atribuída.

Por vezes, Marronzinho sentia algo estranho em seu coração, ficava triste, mas logo depois lembrava que o certo era fazer aquilo e voltava ao seu trabalho. Porém, com o passar dos anos, Marronzinho começou a se tornar  uma formiga sem alegria e mal humorada. Ninguém surportava Marronzinho,- Este cara é esquisito- diziam as outras formigas.  Brigava com todos, nada estava bem, só via coisas negativas na vida. Até que um dia ele resolveu acabar com tudo. Decidira dar um fim á sua existência. Afinal de contas, se viver era ficar alimentando larvas todos os dias, então seria melhor acabar com tudo. Marronzinho foi até a beira do precipício, olhou para o  formigueiro que fora seu lar e se despediu da vida se jogando lá de cima.

Entretanto, o vento que soprava  encosta acima , fez com que Marronzinho subisse ao invés de cair, alcançando uma  boa altura antes de ser deixado carinhosamente pelo vento próximo ao formigueiro.

- Nossa ! como é bonito ver as coisas lá de cima – Disse Marronzinho.

- Gostaria de poder voar, mas como conseguir, eu não tenho asas!

Imediatamente, Marronzinho começou a vagar pela floresta procurando uma maneira de voar. Por dias ele fez isto. Já havia até esquecido que queria morrer, tamanha fora a excitação que sentira por ter visto, mesmo que por alguns instantes, a floresta lá de cima.

Algumas formigas de outros formigueiros que o encontravam pela floresta diziam:

-Marronzinho, volta para o seu formigueiro, você morrerá sozinho na floresta.Você está louco?- O que ele fizera havia se espalhado por toda a floresta. Todos sabiam que havia tentado o suicídio e abandonado o formigueiro. Mas Marronzinho não ligava, afinal havia descoberto algo que o fizera ter vontade de viver novamente.

Um dia Marronzinho encontrou um tigre:

- Oi seu tigre! Como está o senhor?

- Eu estou bem.Vocês estão sempre em bando, onde estão os outros?

- Eu estou sozinho. Mas e o senhor, cadê os outros?

- Que outros, o certo e viver sozinho.

- Ham? Sozinho? Mas minha mãe me disse que o certo e viver com os outros

- Não, o certo e viver sozinho. E olha, vai embora daqui que eu não gosto muito de fazer amigos.

Marronzinho acelerou o passo e desapareceu dos olhos do tigre. Mas algo ficou em sua mente:

- Qual é o certo então, viver sozinho ou com os outros?

Marronzinho estava confuso com o que o tigre havia lhe dito.

Continuando sua caminhada pela floresta, se deparou com um bicho esquisito. Ele tinha uma tromba enorme em forma de funil e não tinha boca- Era o tamanduá. Assim que este viu Marronzinho, esticou a tromba até ele e começou a sugar. O vento provocado, arrastava tudo em volta , folhas e pedras . Marronzinho se viu dragado até a tromba do tamanduá.

- Moço, porque está fazendo isto – gritava Marronzinho, colocando suas patinhas na entrada da tromba, impedindo assim de ser sugado para o estômago daquele bicho estranho.

- Me solta, seu aspirador gigante! Continuava a gritar.

Até que o tamanduá necessitando de mais ar para uma segunda aspirada, deixou Marronzinho cair . Este correu o mais que pode , mas infelizmente o tamanduá já estava atrás dele e aspirando novamente . Se agarrava a tudo que podia para não ser devorado. Marronzinho já não enxergava direito devido a poeira que se acumulava em seus olhos e continuava a correr desesperadamente sem que  conseguissse se desvencilhar do tamanduá. Mais a frente, ele viu uma árvore e sem pensar duas vezes subiu até alcançar um galho, se livrando enfim daquele bicho horrendo.

A respiração de Marronzinho era tão alta e ofegante que acabou chamando a atenção de um outro bicho, o camaleão

- Comida fácil- disse o camaleão, que já apontava sua lingua pegajosa em direção àquela formiguinha.

Marronzinho, olhando pelo canto dos olhos e ainda com a respiração ofegante, percebeu aquela enorme lingua gosmenta sendo lançada em sua direção

- Ai! Vai começar de novo. Disse apavorado.

A língua o pegou e Marronzinho estava sendo levado diretamente para a boca daquele camaleão.Iria virar um belo aperitivo cansado, mas  Marronzinho estava com sorte. Como estava cheio de poeira da fuga do tamanduá, acabou escorregando da língua e caiu no chão da floresta.

Desta vez porém, não teve tanta sorte. Havia quebrado uma das patinhas dianteiras.

- Isso Dóiiii! Resmungou .

Estava exausto de  tanto tentar fugir e lutar pela sua vida, mas parecia que por aquele momento não havia mais nenhum perigo imediato, o que o levou a entrar debaixo de um galho de árvore e dormir um pouco.

No outro dia, Marronzinho começou novamente sua busca por um meio de voar. Agora mancando, encontrou então uma lagarta que se arrastava pelo chão da floresta. A primeira reação foi de se esconder, mas depois pensou:

- Ela não tem nariz grande e nem aquela língua gosmenta. Vou falar com ela.

-Oi dona lagarta!

- Oi . Você é Marronzinho, aquela formiga que abandonou o formigueiro e tentou se suicidar?

- È! Sou sim

- Ham, sei!

- Dona lagarta eu já estou a vários dias tentando encontrar uma maneira de voar e não consigo, a floresta é muito perigosa e não sei se conseguirei sobreviver mais um dia aqui. A senhora sabe quem pode me ensinar a voar?

- Olha Marronzinho,  se tiver um pouco de paciência eu poderei te falar sobre isto, mas vai ter que esperar uns dias.

- Tá bom dona lagarta eu espero. O que a senhora vai fazer agora?

- Apenas olhe e tenha paciência.

Ali ficou Marronzinho, vendo aquela lagarta se pendurar em um galho de árvore, tecer uma rede em volta de si mesma e aparentemente morrer. Dias se passaram e Marronzinho já estava impaciente, mas algo dentro dele dizia: Tenha paciência

- Dona lagarta! A senhora está me escutando? Dona lagarta! Dona lagaaarta!

A lagarta não respondia.

- Será que ela morreu? Se perguntava Marronzinho impaciente.

Então algo começou a se mexer dentro do casulo. Isto chamou a atenção de Marronzinho que não desgrudava os olhos da árvore.

Uma borboleta havia nascido.

Marronzinho pensou:

- Ué! Cadê a dona lagarta!. Dona borboleta cadê a dona lagarta que estava aí dentro?

- Oi Marronzinho, ainda sou eu, apenas me transformei em uma borboleta.

Marronzinho maravilhado com aquela descoberta, subiu, ainda que mancando, até àquele galho de árvore e se pendurou de cabeça para baixo.

- Marronzinho, saia daí o que  você está fazendo!

- Ué! Vou me transformar em uma borboleta também.

- Não dá Marronzinho, você é uma formiga

- Se você conseguiu eu também consigo

E continuou pendurado de cabeça para baixo, na esperança de poder tecer uma rede.

- Desça daí Marronzinho vamos conversar. Vem aqui vem!

- Tá bom dona lagarta.

- Não sou mais uma lagarta, agora sou uma borboleta. Olha Marronzinho, você nunca poderá ser uma borboleta, mas isto não te impedirá de voar. Vamos fazer o seguinte…

- O que dona lagar.. borboleta.

- Sobe nas minhas costas.

Assim foi, Marronzinho subiu nas costas da borboleta e começaram um vôo.

Os olhos de Marronzinho brilhavam, as anteninhas esticadas para cima cortavam o vento. Ele estava finalmente voando. Tudo era lindo lá de cima, o vale, as montanhas os rios. Marronzinho mal podia falar, chorava e ria ao mesmo tempo. Finalmente ele havia conseguido o que tanto desejava: Voar. Agora tudo fazia sentido, um peso enorme havia sido retirado de suas costas. Tudo pelo que passou de ruim em sua busca já não tinha a menor importância, o importante é que agora ele estava voando e estava feliz. A borboleta o havia levado pelos quatro cantos do mundo. Agora Marronzinho conhecia tudo, aquela tristeza desaparecera. O seu coração estava alimentado de vida.

Voltaram depois de muitos anos para a floresta e Marronzinho, como sempre curioso, começou a questionar sobre algumas coisas que o deixara confuso quando conversou com o tigre.

- Azulzinha- era como ele chamava a borboleta- um dia eu encontrei o tigre que me disse que o certo era viver sozinho, mas minha mãe sempre me disse que o certo era viver com os outros. Afinal o que é certo?

- Nada é certo e tudo é certo Marronzinho.

- Shiii.. pirou- Pensou Marronzinho ao mesmo tempo que coçava a cabeça com as antenas.

-Depende para quem você vai perguntar. Os indivíduos quando se reúnem criam regras para que as coisas fiquem mais previsíveis. Então o que é certo em um grupo de indivíduos e errado para outros. Não existe o certo absoluto somente o certo relativo. Para o tamanduá era certo te comer , para o tigre viver sozinho, para sua mãe viver com os outros.

- Tá bom, já entendi. Azulzinha eu quero ver minha mãe e meus irmãos no formigueiro,

vem comigo!

- Tá bom Marronzinho eu vou.

Chegando no formigueiro, Marronzinho encontrou sua mãe e seus irmãos que o receberam com alegria e toques de antenas. Marronzinho apresentou sua amiga Azulzinha e contou tudo que fez pelo mundo. Sua mãe disse:

-Você realmente enlouqueceu Marronzinho.

Então, pediu a sua mãe para voltar á trabalhar alimentando as larvas.

Agora Marronzinho não tinha mais áquela sensação de tristeza, sua alma estava livre e ele podia voltar a voar e passear pela floresta sempre que quizesse, aliás o formigueiro nunca o havia impedido disto. Era apenas a crença do certo e errado que o havia mantido em cativeiro por tanto tempo. Não era a prisão física que o estava matando , mas sim a do coração. E a chave estava dentro dele mesmo.

Créditos a Edvaldo de Castro
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A Formiguinha Que Queria Voar by Edvaldo de Castro is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.