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Uma ótima boa tarde para vocês…

September 4th, 2009 6 comments

Era uma quinta feira, e após algumas horas na oficina da equipe de baja da faculdade, estava voltando para casa, e assim que peguei o ônibus na 28 de setembro, reparei num ser que subia pela porta de trás. A aparência num era lá muito agradável, vestia “chinelas” bermuda e camisa.

Sem prestar mais atenção, sentei num banco vazio ao lado de um coroa que carregava bandejas de isopor, daquelas que vem o presunto fatiado que se compra no mercado.

Eis que surge o indivíduo na frente do ônibus e começa a oferecer blisters de chiclete, carregava uma caixinha que parecia que tinha afanado de outro camelô. Após insistentemente tentar vender suas guloseimas, veio com um discurso de indignação com a situação do país e com a falta de oportunidade para um emprego e tal e pedia uma colaboração para vender todos seus chicletes, que dessa forma seria menos um na rua, e com pitadas de pastor evangélico tentou dar seu recado. Pois bem, não vendeu nada.

Seguindo o caminho, na serra Grajaú-Jacarepaguá, eu viajando em meus pensamentos, ouço a célebre frase -Senhoras e senhores passageiros, uma ótima boa tarde para vocês…-  e ai fui reparar quem foi o autor da redundante saudação – é que eu trago aqui…- reparei que se tratava de outro camelô, os famosos “camelô da serra”. Também usava o mesmo estilo do outro, porém bem melhor apresentado com sua camisa pólo da  Lacoste “meide im xáina” provavelmente adquirida na Uruguaiana, e ainda um boné mal colocado na cabeça, que parecia que não cabia, e seu gancho de açougue cheio de saquinhos com as mais diversas opções dos magníficos “passatempo de sua viagem”. Com um discurso mais amigável e podendo atender melhor a demanda de doces dos passageiros, o segundo obteve sucesso vendendo, até onde eu vi, pelo menos 2 pacotes de jujuba de menta, que melhora seu hálito e alivia o pigarro da garganta.

Ambos eram negros se vestiam de forma semelhante, porém  um soube melhor vender seu peixe e conseguir êxito em seu trabalho. Exemplo prático de quão é importante o marketing, seja qual o ramo que se escolha atuar e tudo mais, mas verdade seja dita, já vi muito camelô na serra com camisas de times de futebol, que custam no mínimo uns 140 reais (as originais, é claro), e sempre os que trabalham na serra estão bem vestido.

Isso me deu o que pensar no restante da viagem.

Com a minha eloquência de terceiro grau incompleto e relativamente boa aparência (afirmo sabendo que existe gente mais feia que eu), era capaz de vender bem, e assim, poder vestir uma camisa Lacoste, Elle et Lui e tantas outras. Portanto fica a pergunta: Alguém tem o telefone da associação dos camelôs da serra para eu saber se existe uma vaguinha por lá?

PS: Hoje no caminho de ida para a faculdade, vi novamente o camelô da camisa Lacoste. Não estava com camisa de marca, mas estava de qualquer forma bem vestido e com seu boné vermelho na cabeça.

Quando o vi, ele estava brincando com um celular, tirando ou apenas fingindo tirar fotos de uma moça ao lado. Não deu pra ver muitas coisas, mas fico feliz que é menos um na rua pedindo esmola e roubando, é menos um no morro se drogando ou traficando.
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Os Cocos de Búzios

January 31st, 2009 3 comments

Búzios

Nas Férias de Dezembro de 2008 fui para a famosa cidade de Búzios. Esta cidade se tornou famosa depois que, em 1964 uma renomada atriz francesa, Brigitte Bardot,  fez dela  sua cidade favorita para passar suas férias. É conhecida por ser uma cidade frequentada  pela classe média alta e alta do Brasil além de receber centenas de turistas estrangeiros, devido a isto Búzios é uma cidade cara, o que, em geral, afugenta as pessoas de classe social mais baixa.

Chegando lá fui logo para a praia de Geribá, uma das mais badaladas de Búzios. Manhã cedinho, fui de calção novo, especialmente comprado para aquela cidade, afinal de contas a alta sociedade estaria lá. Passando pelo portal de acesso à areia me deparei com um visual lindo, com a maré ainda baixa, o mar ainda muito calmo. A esquerda da praia vi inúmeras gaivotas pousadas na água a beira da areia aguardando as sobras de peixes jogadas por pescadores que tinham acabado de aportar  trazendo peixes frescos para serem comercializados. A praia naquele momento estava limpa e ainda se podia ver um trator repleto de lixo e vários garis deixando o local. Passei um dia maravilhoso, um céu azul contrastado por um sol amarelo brilhante. O calor era forte minimizado pela temperatura baixa da água e pelo vento que soprava ininterruptamente. Tomei lugar numa mesa com guarda-sol, entre as centenas que povoavam a areia da praia e que eram fornecidas pelos restaurantes do local. Ao longo do dia foi só isto, sol, mar, água de coco, cerveja, e outros petiscos e circundado por pessoas utilizando relógios e óculos importados e alguns portando cordões de ouro de algumas centenas de dólares. Senti-me um pouco constrangido por não possuir símbolos que me colocassem ao mesmo nível social daqueles.

Lá pelas tantas, resolvi ir para casa almoçar, pedi a conta ao rapaz do restaurante, e no caminho levei todo o lixo gerado por mim e joguei numa caçamba da prefeitura que estava posicionada no alto da praia. No final da tarde resolvi voltar na praia para curtir o final do dia e ver como seria o por do sol em Búzios. Quando passei pelo portal tive um choque, centenas de cocos, copos descartáveis e guardanapos estavam espalhados pela areia nos  locais antes ocupados pelas mesas e seus frequentadores, só escaparam as latinhas, pois são recolhidas pelos catadores de latas. O visual era completamente diferente daquele visto pela manhã, lembrava bastante um aterro sanitário com cachorros correndo e brincando por entre os cocos em busca de algum resto alimentar.

Isto me fez refletir sobre a sociedade brasileira. Como pessoas da alta sociedade, tão educadas, viajadas e frequentadoras daquela praia podiam largar o lixo gerado por eles no chão, como os donos dos restaurantes, que também são pessoas do mais alto nível, não se preocuparam em recolher todo aquele lixo, pois, afinal de contas foram eles que o produziram, é mais ou menos pensar em ir a um restaurante e chegando lá no final do dia encontrar todos os pratos copos e talheres sujos jogados pelo chão. Também não entendo como o prefeito da cidade não institui uma norma de utilização da areia pelos restaurantes onde cada um teria que recolher o lixo gerado por eles com pena de receber multas pesadas ou até perder a licença, ao invés disto este prefere gastar mais dinheiro contratando vários garis para fazer a limpeza da praia pela manhã, quando ele poderia apenas recolher as caçambas de lixo, o que seria mais rápido e demandaria menos tempo e pessoal.

Cheguei à conclusão que a consciência coletiva em tratar o bem público tem muito pouco a ver com a condição social das pessoas. Tenho fé que um dia, nós brasileiros, teremos esta consciência e chegará o dia em que nossos rios, praias e lagoas estarão despoluídos, nossas ruas limpas e que cada um cuidará do bem público como sendo seu, pois na verdade ele é  nosso, só não conseguimos ainda perceber esta realidade no mundinho  em  que  vivemos.

Edvaldo de Castro

Janeiro 2009
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